Começo afirmando categoricamente que a espiritualidade é algo único, cada um tem a sua, não há fórmulas prontas para trilhar o caminho da espiritualidade, não é mesmo?No Paganismo então, isso é expresso muito abertamente. Aliás, o Paganismo é um caminho espiritual que oferece uma certa liberdade: você pratica solitariamente, ou em grupo; você está numa relação de discípulo-mestre ou você é auto-didata; você presta homenagem aos deuses do panteão egípcio ou você acende uma vela para Dionísio aqui e outra para Shiva ali, etc.; você faz rituais seguindo a roda do hemisfério Sul, Norte ou ainda pode misturar as duas; você pode ter diversas versões do mesmo fundamento mágico... enfim, são muitas coisas.
Acho que isso é esperável tratando-se de uma religião que não é UMA religião só e sim muitas, variando no tempo e no espaço, que não possui uma organização vertical para ditar dogmas, e é tão antiga quanto a humanidade, além de ter sofrido uma série de distorções e censuras ao longo do tempo, como a que a santíssima inquisição causou.
Mas peraí! Isso não é motivo para passar por cima de certos fundamentos! Ou pelo menos deveríamos ficar mais atentos a eles e refletir sobre nossas concepções e práticas. Uma das preciosas vantagens dessa "liberdade de crença" dentro do Paganismo é que não precisamos ser adestrados a acreditar para sermos aceitos, nós podemos refletir e aceitar de coração aberto.
Então vamos refletir sobre duas questões que já dão o que falar:
Uma delas é a velha e polêmica "seguir a roda do norte, a roda do sul, ou roda mista?". Ok, vamos voltar a um fundamento do Paganismo: é uma religião de adoração/ celebração dos ciclos da natureza. Esta é uma das características básicas de qualquer vertente pagã. E que natureza é esta? Para mim está obvio que esta natureza é o chão que você pisa, é a água que você bebe, as frutas que te alimentam, o ar que é brisa ou ventania, é o sol ou a chuva que você toma... ou seja, é a natureza que está aqui, no meio ambiente em que você vive, é sentir mais frio no solstício de inverno, é sentir as fogueiras de "Beltane" no desenrolar da Primavera...
Logo, não vejo sentido comemorar calor/ expansão enquanto a terra está fria e em recolhimento, em nome de uma suposta "egrégora". Não esqueçamos que somos nós humanos que criamos e REcriamos egrégoras, muito mais poderosas são as energias que emanam da natureza!
Outra polêmica ainda mais delicada e subjetiva é da identidade no paganismo. Aliás, não só é complicado falar sobre isso por ser uma questão subjetiva espiritual, mas também até certo ponto política. Mas o detalhamento da questão política fica para outro post...
O que mais vejo por aí são pagãos claramente de origem racial negra e/ou ameríndia identificando-se como "pagão celta"/ "pagão nórdico" / "pagão etrusco", -tudo- menos um paganismo com bases africanas ou ameríndias. Ora, nada contra uma pessoa afro-descendente se identificar e prestar homenagens à deusa celta Brigit ao invés da deusa africana Iemanjá, por exemplo! Acho isso perfeitamente cabível, já que a espiritualidade é muito pessoal.
Porém, observemos um fundamento do Paganismo: é uma religião de honra aos ancestrais.
- Os ancestrais são seus entes familiares que já se foram e que fundaram sua família;
- Os ancestrais são os Deuses da(s) cultura(s) que deu/ deram origem a você.
- Os ancestrais são os Antigos que habitaram esta terra antes de nós, independente de termos uma ligação cultural ou espiritual com eles ou não.
A questão aqui não é que "se nasceu no Brasil tem que acender vela pra caboclo..." de forma nenhuma, ninguém precisaria deixar de lado sua admiração e afinidade com a cultura e religião de outras terras, mas, tantas riquezas pessoais e locais que poderiam ser acrescentadas a essa afinidade espiritual com terras distantes, são ignoradas e muitas vezes, pasmem, desrespeitadas!
Para que tentar ser "o outro", ser algo que você já nasceu não sendo, se você pode ser você mesmo? É no mínimo um paradoxo, para não dizer uma farsa.
Como pagãos, devemos sim, respeitar os ancestrais da terra, no mínimo honrando sua memória ao fazermos rituais ou oferendas.
Quem vos escreve é Falcão Marrom: simpatizante da magia rúnica; devota da deusa nórdica Freyja; com ancestralidade marcadamente ameríndia tupi e comprovadamente hispano-lusitana; admiradora das religiões de raiz africana e bastante afim com a energia do orixá Iemanjá; quando precisa canta mantras em gratidão ou prece a deusa hindu Saraswati e quando cabe, usa seu cachimbo xamânico em rituais. E etc., cada coisa no seu tempo-espaço apropriado.
Não me sinto menos pagã por essa diversidade, aliás me sinto mais pagã do que nunca, alinhando-me e conhecendo os ciclos da natureza que me nutre e reverenciando a minha ancestralidade e honrando os ancestrais donos da terra.
~~Bons Ventos~~
