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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Por diferentes formas de ver e viver

 
Faz dias que não me sai da cabeça a coluna do jornalista Navarro (que não faz jus ao nome), sobre o caso dos Guarani-Kaiowá. Mas nem vou perder o meu e o seu tempo falando sobre isso, pelo nível do texto, é apenas um querendo chamar atenção e causar polêmica.

Agora, outra coluna que li hoje, do Dr. Luiz Pondé, entristece-me. Não apenas pela sua clara posição, mas especialmente por ser um "pós-doutor" da área de Filosofia, alguém que a gente imagina poder ter horizontes muito mais abertos, ou menos limitados. Se pessoas desse cacife tem uma visão tão raza sobre a sociedade e suas "necessidades", imagina por aí! Tenho visto uma avalanche de comentários na internet (presumivelmente de pessoas educadas, de classe média, no mínimo) que me soam tão absurdas e hipócritas que eu desejei muitas vezes ser uma minhoca embaixo da terra: cega, surda e muda.
Apesar do Doutor Luiz parecer mais preocupado em criticar o pessoal do facebook que aderiu à campanha em prol da causa Guarani-Kaiowá, na minha interpretação, seu argumento chave no texto seria que: deveríamos deixar os índios serem incorporados à nossa "civilização", como se esse fosse o caminho "natural" a ser seguido, o caminho da homogeneização social e cultural. (leia o texto original aqui)

Será?

Será que é positivo para humanidade o fim de todas as outras formas de viver diferentes da nossa?

Será que é certo obrigar os povos indígenas a adotarem o nosso estilo de vida? E se eles fossem o poder hegemônico (como nós atualmente somos), gostaríamos de ser obrigados a adotar o estilo de vida deles?

E a importância da existência das comunidades indígenas para a preservação do meio ambiente? Ninguém pode negar que, tirando casos isolados, esses povos tradicionais vivem uma espécie de simbiose: eles precisam do meio ambiente tanto quanto o meio ambiente precisa deles (no sentido de que sem eles, a floresta já teria virado pasto).

Como o próprio autor do texto sugere, índio quer iphone. Sim, e por que não? No que um iphone, uma televisão, uma câmera, uma roupa, falar português, vai fazer o sujeito menos índio? (E não me venha com a resposta "aculturação", atualize-se esse popular conceito está ultrapassado)

Concordo com ele, que devemos acabar com a ideia romântica do índio puro e sem malícias. Índio é gente, como eu e você -- índio é gente que merece o respeito de continuar sendo índio, e DEVE ter todo apoio estatal para isso, pois, na minha humilde opinião, devemos ter um Estado e um mundo plural, rico em variedades de perpectivas. Ou estaremos fadados à desumanidade...

Do fundo do meu coração, olhando para o exemplo de meu chará mais graduado, um filósofo desse quilate, prestando esse desfavor a humanidade me reforça apenas um sentimento:

pegar todos esses diplomas, fazer uma fogueira e ficar com a sabedoria do pajé.



Agora, o que paganismo tem a ver com isso?

- Acho importantíssimo que a comunidade pagã se antene nessas questões, pois além dos povos indígenas serem os "ancestrais vivos dessa terra" (e não devemos nós pagãos, por princípio, honrar os ancestrais???) eles também representam uma minoria étnica, assim como nós, pagãos, representamos uma minoria religiosa... ou seja, minorias unidas = menos chances de serem esmagadas pela maioria hegemônica.


Para se informar mais, leia e veja:

  • Uma das notícias sobre o caso dos Guarani kaiowá
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21192
 
  • Longa metragem "Terra Vermelha" sobre o povo Guarani-Kaiowá

  •  Artigo sobre relação dos Guarani kaiowá com sua terra sagrada (tekoha) 
..."Importa observar que os Guarani e Kaiowá têm ligação e conexão direta com os territórios específicos, considerando-se a si e aos territórios como uma só família, dado que o território específico é visto por esses indígenas como humano. Os Guarani e Kaiowá possuem um forte sentimento religioso de pertencimento ao território específico, fundamentado em termos cosmológicos, sob a compreensão religiosa de que os Guarani e Kaiowá foram destinados, em sua origem como humanidade, a viver, usufruir e a cuidar deste território específico, de modo recíproco e mútuo, portanto eles podem até morrer para salvar a terra. Há um compromisso irrenunciável entre os Guarani e Kaiowá e o guardião/protetor da terra, há pacto de diálogo e apoio recíproco e mútuo: os Guarani e Kaiowá protegem e gerenciam os recursos da terra, por sua vez, o guardião da terra vigia e nutre os Guarani e Kaiowá." +leia mais+

  • Reportagem que dá um apanhado geral de quem são os povos indígenas no Brasil e o que nós, os "brancos" pensamos sobre eles. "Índios no Brasil - quem são eles?"



~bons ventos~

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O sono do rio (lenda brasileira)


Numa noite estrelada, Serafim deslizava o seu barco pelas águas do rio São Francisco. Exibia orgulhosamente a sua nova carranca. Serafim afastara-se dos outros barqueiros. Através das águas do velho Chico adentrava o sertão. Guiava-se pelas estrelas, que lhe revelavam as horas. O silêncio da noite era cortado pelo barulho, ao longe, da cachoeira que estava próxima. Cada estrela iluminava o rosto do barqueiro, tornando-o luminoso.

Já quase próximo da meia-noite, Serafim foi, de repente, acometido por um cansaço extenuante, que trazia uma lassidão ao seu corpo, quase que em forma de encantamento. Vendo as forças a faltar-lhe, o barqueiro deitou-se na barca. Sentiu que uma força magnética conduzia-o pelo rio. Cada vez mais sentia o barulho da cachoeira aproximar-se. Imóvel, viu a barca parar. No céu a estrela guia indicava-lhe que era meia-noite. Quanto mais brilhava a estrela, mais claras ficavam as águas do rio São Francisco.

Serafim continuava imóvel, deitado sobre a barca. Então um silêncio absoluto reinou ao seu redor. A cachoeira cessou o barulho das suas águas. Diante da calmaria silenciosa, o barqueiro lembrou-se que aquele era o dia do Sono do Rio, e que nenhum movimento poderia interromper o momento único, pois ele se dava apenas uma vez no ano. Bem devagar, para não perturbar o Sono do Rio, Serafim tirou dos bolsos um pedaço de fumo cortado. Estendeu as mãos e o pôs sobre a popa. Continuou imóvel. Foi quando viu a imensa mão do Negro d’Água fazer uma grande sombra sobre a barca. Ao ver o fumo cortado sobre a popa, o estranho visitante desistiu de atacar Serafim, apossou-se do fumo e partiu.

O São Francisco continuava a dormir. Serafim permanecia em silêncio, olhando fixamente para o céu estrelado. De repente surgiu a Mãe d’Água, metade peixe, metade mulher. Sentou-se sobre a proa da barca, a pentear os belos e longos cabelos verdes, como se fizesse uma oração ao Sono do Rio.

Serafim sabia que o Sono do Rio durava apenas um segundo, mas tudo parecia eterno durante aquele segundo. As cobras perdiam a sua peçonha, os peixes ficavam imóveis no fundo do rio. De repente o belo canto da Mãe d’Água ecoou, como se velasse o Sono do Rio. Diante do seu canto, o São Francisco abriu o seu abismo hiante, devolvendo todos os homens que em suas águas morreram afogados. Serafim viu os mortos retomando a forma dos seus corpos, flutuando no ar, indo para o céu, guiados pelo clarão das estrelas.

Quando o último homem desapareceu no céu, também a Mãe d’Água sumiu. A cachoeira voltou a correr normalmente. Serafim apercebeu-se que a beleza que vira há pouco tinha findado. Sentiu-se o mais feliz dos sertanejos. As forças voltaram ao seu corpo. Pensou em levantar-se, mas continuou inerte, deitado sobre a barca por mais um minuto, para ter a certeza de que não iria atrapalhar o Sono do Rio.

Fonte: http://virtualia.blogs.sapo.pt/2009/03/
Ilustrações: José Lanzellotti
Adaptação livre de Jeocaz Lee-Meddi para textos de Brasil, Histórias, Costumes e Lendas.

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Uma das lendas brasileiras mais bonitas que já ouvi, repleta de magia.

Aí está uma boa maneira de conhecermos melhor nossa ancestralidade: conhecendo as lendas brasileiras. Quando falo que nós pagãos brasileiros devemos nos atentar sobre o que significa honrar a nossa ancestralidade (ponto essencial da espiritualidade pagã), estou falando que além de honrar nossa ancestralidade por afinidade espiritual e a nossos ancestrais da família, devemos também honrar os ancestrais da nossa terra. E quem são os ancestrais da terra (pelo menos aqui no Norte-Nordeste)? São os espíritos que habitam e guardam essa terra, que aqui atendem pelo nome de caboclo, caipora, mãe d'água, saci... -- para citar os mais famosos.

Honrar esses espíritos significa respeitá-los da mesma forma que respeitamos gnomos, duendes, fadas, ondinas, anjos, gênios, devas, e uma infinidade de outros espíritos que tem sua origem no folclore de outras regiões do mundo, especialmente da Europa. Penso que tudo começa com procurar conhecê-los.

Achei essa lenda preciosa, pois está muito pouco ou nada "contaminada" pelo cristianismo e nos mostra um pouco da relação e comportamento desses seres "mágicos" da nossa terra. E não adianta querermos pasteurizar, colocar tudo num saco só e acharmos que espíritos da natureza são todos iguais seja aqui seja em qualquer outro lugar. Não... Mãe d'água é Mãe d'água, sereia é sereia, saci é saci, duende é duende, e assim por diante. O princípio básico pode até ser o mesmo, mas se for pra pensar assim, o princípio básico de tudo e qualquer coisa é o mesmo.



Me permitam arriscar umas interpretações da lenda:
  •  O Sono do Rio é um momento mágico que se dá apenas uma vez no ano, durante a meia-noite, em um segundo que parece uma eternidade. -> essas questões temporais são interessantes. Os mais velhos já diziam que não é seguro estar na rua à meia-noite. E os bruxos bem sabem que é o horário indicado para se realizar determinados tipos de magia. (o porquê disso fica para outro post... rs).
  • Quem segue o Antigo caminho também sabe, por exemplo, que quando traçamos um círculo sagrado, construímos um espaço fora do tempo, e ali o tempo passa de outra forma. Como por exemplo, no mundo dos sonhos: qualquer um já passou pela experiência de cochilar durante segundos e parecer muitas horas. Ou seja, Serafim, naquele segundo que 'parecia uma eternidade', estava dentro de um momento mágico, no "tempo fora do tempo".
  • Quando Serafim se lembrou que se tratava do dia do Sono do Rio, tratou te tirar o fumo do bolso e deixar na polpa, o que, penso eu, não fez à toa, já que logo depois chega o Negro d'agua, e em vez de atacá-lo, recebe aquele pedaço de fumo, que podemos considerar assim, uma oferenda de Serafim para acalmar o espírito perigoso do rio, ou simplesmente o guardião do rio. Quem conhece um pouco de xamanismo, sabe que é comum entre o xamanismo indígena, de uma forma geral, usar o fumo/ tabaco como oferenda.
  • E aparece a figura da Mãe d'água, que não deve ser confundida com Iemanjá ou Oxum, pois essas são orixás -- é como confundir Afrodite com uma ninfa. A Mãe d'água parece ser central nessa história, pois é através de seu canto que o encanto do Sono do Rio acontece: os mortos afogados vão para o céu (opa, já vi algo assim num filme famoso! rs)
Pra aqueles que captaram a mensagem, não vão se esquecer de andar com um pouco de fumo no bolso ao adentrarem as matas e rios de nossa terra! ;)

~~bons ventos~~

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Paganismo no Brasil: identidade e natureza

Começo afirmando categoricamente que a espiritualidade é algo único, cada um tem a sua, não há fórmulas prontas para trilhar o caminho da espiritualidade, não é mesmo?
No Paganismo então, isso é expresso muito abertamente. Aliás, o Paganismo é um caminho espiritual que oferece uma certa liberdade: você pratica solitariamente, ou em grupo; você está numa relação de discípulo-mestre ou você é auto-didata; você presta homenagem aos deuses do panteão egípcio ou você acende uma vela para Dionísio aqui e outra para Shiva ali, etc.; você faz rituais seguindo a roda do hemisfério Sul, Norte ou ainda pode misturar as duas; você pode ter diversas versões do mesmo fundamento mágico... enfim, são muitas coisas.
Acho que isso é esperável tratando-se de uma religião que não é UMA religião só e sim muitas, variando no tempo e no espaço, que não possui uma organização vertical para ditar dogmas, e é tão antiga quanto a humanidade, além de ter sofrido uma série de distorções e censuras ao longo do tempo, como a que a santíssima inquisição causou.

Mas peraí! Isso não é motivo para passar por cima de certos fundamentos! Ou pelo menos deveríamos ficar mais atentos a eles e refletir sobre nossas concepções e práticas. Uma das preciosas vantagens dessa "liberdade de crença" dentro do Paganismo é que não precisamos ser adestrados a acreditar para sermos aceitos, nós podemos refletir e aceitar de coração aberto.
Então vamos refletir sobre duas questões que já dão o que falar:

Uma delas é a velha e polêmica "seguir a roda do norte, a roda do sul, ou roda mista?". Ok, vamos voltar a um fundamento do Paganismo: é uma religião de adoração/ celebração dos ciclos da natureza. Esta é uma das características básicas de qualquer vertente pagã. E que natureza é esta? Para mim está obvio que esta natureza é o chão que você pisa, é a água que você bebe, as frutas que te alimentam, o ar que é brisa ou ventania, é o sol ou a chuva que você toma... ou seja, é a natureza que está aqui, no meio ambiente em que você vive, é sentir mais frio no solstício de inverno, é sentir as fogueiras de "Beltane" no desenrolar da Primavera...
Logo, não vejo sentido comemorar calor/ expansão enquanto a terra está fria e em recolhimento, em nome de uma suposta "egrégora". Não esqueçamos que somos nós humanos que criamos e REcriamos egrégoras, muito mais poderosas são as energias que emanam da natureza!

Outra polêmica ainda mais delicada e subjetiva é da identidade no paganismo. Aliás, não só é complicado falar sobre isso por ser uma questão subjetiva espiritual, mas também até certo ponto política. Mas o detalhamento da questão política fica para outro post...

O que mais vejo por aí são pagãos claramente de origem racial negra e/ou ameríndia identificando-se como "pagão celta"/ "pagão nórdico" / "pagão etrusco", -tudo- menos um paganismo com bases africanas ou ameríndias. Ora, nada contra uma pessoa afro-descendente se identificar e prestar homenagens à deusa celta Brigit ao invés da deusa africana Iemanjá, por exemplo! Acho isso perfeitamente cabível, já que a espiritualidade é muito pessoal.

Porém, observemos um fundamento do Paganismo: é uma religião de honra aos ancestrais.
  • Os ancestrais são seus entes familiares que já se foram e que fundaram sua família;
  • Os ancestrais são os Deuses da(s) cultura(s) que deu/ deram origem a você.
  • Os ancestrais são os Antigos que habitaram esta terra antes de nós, independente de termos uma ligação cultural ou espiritual com eles ou não.
Visto isso, mesmo que um pagão não honre todos seus ancestrais, ele lhes deve no mínimo consideração. [Consideração abrange uma série de posturas, reflita leitor.] Penso que seja um paradoxo [num exemplo bem ilustrativo] um pagão que mora na terra Brasilis, sabendo que tem uma origem mestiça, viver num suposto mundo "nórdico", sonhando em ser viking nas geladas florestas coníferas, empunhando uma bandeira da Noruega, tomando hidromel no chifre em honra a Odin, sem sequer lembrar que seu bisavô era índio e reverenciava Bep Kororoti; que sua pele é parda e seu cabelo é crespo; que sua língua-mãe é o português; que é dezembro e que o Sol está queimando como fogo; que no inverno a maioria das árvores a sua volta deram outros sinais em vez de queda de folhas; que aqui nas matas tem caipora e tem caboclo...

A questão aqui não é que "se nasceu no Brasil tem que acender vela pra caboclo..." de forma nenhuma, ninguém precisaria deixar de lado sua admiração e afinidade com a cultura e religião de outras terras, mas, tantas riquezas pessoais e locais que poderiam ser acrescentadas a essa afinidade espiritual com terras distantes, são ignoradas e muitas vezes, pasmem, desrespeitadas!

Para que tentar ser "o outro", ser algo que você já nasceu não sendo, se você pode ser você mesmo? É no mínimo um paradoxo, para não dizer uma farsa.

Como pagãos, devemos sim, respeitar os ancestrais da terra, no mínimo honrando sua memória ao fazermos rituais ou oferendas.

Quem vos escreve é Falcão Marrom: simpatizante da magia rúnica; devota da deusa nórdica Freyja; com ancestralidade marcadamente ameríndia tupi e comprovadamente hispano-lusitana; admiradora das religiões de raiz africana e bastante afim com a energia do orixá Iemanjá; quando precisa canta mantras em gratidão ou prece a deusa hindu Saraswati e quando cabe, usa seu cachimbo xamânico em rituais. E etc., cada coisa no seu tempo-espaço apropriado.

Não me sinto menos pagã por essa diversidade, aliás me sinto mais pagã do que nunca, alinhando-me e conhecendo os ciclos da natureza que me nutre e reverenciando a minha ancestralidade e honrando os ancestrais donos da terra.

~~Bons Ventos~~